terça-feira, 23 de junho de 2009

“Legendários” em série

Por Giselle Magno

No Brasil, um garoto espera avidamente pelo dia em que sua série preferida vai ao ar nos EUA. Algumas horas depois de sua exibição, esse episódio inédito é disponibilizado para download na internet. Então, ali, no seu próprio quarto, ele começa o processo de criação das legendas em parceria com outras pessoas que podem estar em qualquer lugar do país. Para tanto, não importa sua profissão nem o lugar onde mora. O que importa é que tenha bom conhecimento de inglês e que goste muito de seriados. Ele dedica parte de seu tempo para criar legendas de episódios ainda inéditos no Brasil e sem ganhar nada em troca por isso. Esse tipo de fã gosta de ser chamados de “legender”.
Os fãs brasileiros de seriados já não querem mais esperar pelos episódios de suas séries irem ao ar pelas emissoras do país. Eles preferem fazer o “download” pela internet e serem os primeiros a assistir ao episódio. E para que isso se torne possível eles precisam do trabalho dos legenders, que se disponibilizam para realizar a produção das legendas para esses episódios.
Antes a interação dos fãs com seus seriados não passava da formação de fã-clubes, em que organizavam encontros, eventos e material sobre a série e, com a internet, a criação de fóruns, sites e arquivos virtuais. Mas com o avanço tecnológico e a rapidez da internet, o que se tornou muito comum é assistir ao seriado pelo computador mesmo. “Eu prefiro fazer o download, já que pode demorar meses até que eu possa assistir a série pela TV”, diz o estudante do 4º ano do curso de Tradutor e Intérprete, Luís Gustavo Cabral Souza Silva, 20 anos.
Uma das motivações dos legenders é querer tornar o seriado acessível a todos, já que não são todas as pessoas que dominam o inglês. Outro motivo é o aparente descaso que as emissoras têm com as legendas de suas séries, já que há muitos casos de erros de tradução, em que todo o contexto da história se perde. Ou então as legendas ficam dessincronizadas, tornando a compreensão difícil. Porém muitos desses erros não são culpa do tradutor. “O tradutor é uma parte de uma grande engrenagem”, afirma o professor do curso de Tradutor e Interprete da Universidade Católica de Santos, José Martinho Gomes. Ele ainda explica que o que pode levar a ocorrer esses erros é algum revisor que mudou a tradução, ou algum problema com a transmissão das emissoras, no caso da dessincronização.
Para os fãs, os legenders são capazes de elaborar legendas melhores para os seriados. “Muitos acreditam que por eles serem mais jovens, têm mais conhecimento de gírias e termos em inglês, mas ainda é muito precipitado dizer que eles são melhores. Isso é um mito”, declara Gomes. Já para o tradutor Hélio Alberto Silvério Fernandes, a falta de qualificação profissional na área já não compromete mais a qualidade das legendas produzidas pelos legenders. “A divisão do trabalho [das equipes] adquiriu um status bastante complexo, com vários níveis de especialização. Esses grupos hoje contam com membros especializados em cada nível do processo de legendagem, sendo que grande parte dessas pessoas aprendeu por conta própria. Essa estrutura tem garantido um resultado muitas vezes superior ao obtido pelas grandes empresas do ramo”, afirma.
No canal pago AXN, em um episódio de Lost, a frase “there’s a plan to make all of this right”, que a tradução correta seria existe um plano para consertar tudo isso, acabou ficando como há um lugar onde podemos reparar tudo. Outra situação similar ocorreu no canal Warner, em Without a trace, a fala original era “what a lightweight!”, no contexto da cena deveria ser traduzido como que facote!, mas o que lemos na legenda foi que pessoa levinha!. Porém esses erros não são exclusividade dos canais. Em uma legendagem feita por uma equipe de legenders para o filme, até então não lançado nos cinemas, X-men Origens: Wolverine, o nome do personagem Gambit, acabou sendo traduzido como Gâmbia. Além de, ao longo do filme, ocorrer diversos erros de tradução.
Quando uma empresa é contratada para traduzir alguma série, o tradutor pode receber o vídeo com o script, o que seria o ideal, porém às vezes só lhe é enviado um dos dois. O que pode levar a alguns desses erros citados, explica Gomes. Além de terem que conseguir produzir uma legenda que dê num certo número de caracteres e ainda possa transmitir o sentido correto. Para Fernandes, o material produzido pelos legenders, apresenta quase nenhum erro e incoerência no texto, e isso se deve ao fato que todos os envolvidos no processo têm um profundo conhecimento da série.
Segundo o site Séries Etc, Lost, que é uma das séries mais vistas da TV paga, tem uma audiência semanal de 200 mil telespectadores no canal AXN, em que a série é transmitida com mais de dois meses de atraso em relação aos EUA. Ainda não é possível medir o número de downloads, já que há varias fontes, mas segundo o site, a estimativa é de que quase 190 mil pessoas tenham assistido ao episódio final da série, ou seja, o número de downloads quase se iguala ao número de telespectadores do canal AXN. O que demonstra a dimensão dos fãs que assistem a séries pelo próprio computador.
A concorrência entre as emissoras e estúdios com os sites de downloads e legenders se torna mais acirrada. “Esses fãs afetam, sim, o mercado de tradução, na medida em que se tornam cada vez melhores no que fazem. Os trabalhos desenvolvidos por profissionais acabam parecendo medíocres em relação a algumas versões produzidas pelos fãs, o que leva a uma tendência cada vez maior por parte dos consumidores de procurar essas versões não-oficiais”, conta Fernandes. Gomes afirma que é uma concorrência desleal. “Como competir quando eles, de forma ilegal, conseguem disponibilizar um episódio com as legendas meses antes”, indaga. Ambos concordam que as empresas de tradução, dublagem e legendagem deveriam passar a adotar uma estrutura mais parecida com a dos legenders, mas a resistência é grande. “Em vez de tentar agradar seus consumidores, os empresários consideram mais fácil combater quem se esforça para fazê-lo. Essas empresas (Centauro, Álamo, VTI, etc.) não respondem a e-mails de fãs e nem sequer publicam press-releases informando como está sendo conduzido o trabalho” declara Fernandes. Enquanto as empresas de tradução e as emissoras não se unirem em busca de uma maior qualidade na tradução e menos tempo de espera, os fãs continuarão optando pelo “download” e pelos legenders. Seja pela qualidade e respeito com a série, seja pela sua rapidez tão característica.

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