
Na primeira temporada de Gilmore Girls, Rory entra em uma nova escola (Chilton) e é incentivada pela orientadora a enturmar-se com as outras garotas. Ela acaba sendo convidada a se iniciar numa sociedade secreta de garotas, que combinam de pegar ela em casa durante uma noite para a iniciação – que consistiria em um café da manhã, mas que na verdade trata-se de algo bem diferente! As iniciantes na sociedade secreta deveriam tocar um sino histórico do colégio, e são pegas pelo diretor, que chama as mães das garotas.
Lorelai: É por isso que você está aqui? Só isso? Por tocar um sino?
Rory: É...
Lorelai: Pelo menos você estava fumando um cigarro cubano enquanto fazia isso?
Rory: Mãe!
Lorelai: Não, eu quero dizer “Garota má, quantas vezes eu tenho que lhe dizer para não tocar sinos”?
Rory (interrompe): Vamos embora.
Seriados, além de divertirem, também fazem refletir. Como diversas outras formas de arte e comunicação, retratam todo tipo de relação humana. Não poderiam deixar de lado a primeira relação entre todas: com a nossa mãe. Desde os tempos de Donna Reed Show e da Família Dó Ré Mi, a família está na tela, mães e filhas inclusive.
Mais recente, foi ao ar este grande seriado focado principalmente na relação entre mãe e filha. Gilmore Girls, que teve sete temporadas que encerraram-se em 2007, contava a história de Lorelai (Lauren Graham) e sua filha Rory (Alexis Bledel). Lorelai engravidou com dezesseis anos, causando mais conflitos numa relação que já não era tão boa com sua mãe Emily (Kelly Bishop). Talvez também por isso e pela diferença de idade pequena quando comparada a de outras mães e filhas, Lorelai e Rory sejam melhores amigas.
Um exemplo contrário a esse pode ser visto no seriado Gossip Girl, que retrata a vida de jovens da alta sociedade de Nova York. Blair Waldorf (Leighton Meester)trama e põe em prática planos contra qualquer pessoa que atrapalhe seu caminho, até mesmo as amigas. A mãe, Eleanor Waldorf (Margaret Colin), é uma estilista famosa que está mais centrada em seus problemas. Até se preocupa com a filha, mas não consegue demonstrar isso, nem conversar com ela muito bem. Essa distância entre as duas faz com que Blair adote como fiel escudeira Dorota (Zuzanna Szadkowski), empregada da família que quando tenta aconselhar a garota acaba parecendo muito mais mãe dela.
Será que essas histórias podem acabar influenciando mães e filhas na vida real? Beatriz Rodrigues Szikora, 22 anos, estudante do último ano de Psicologia diz que “Temos que sempre pensar nas particularidades da mãe e da filha para falar da relação delas. Mais do que isso, temos que levar em conta como elas se relacionam com a televisão e com esse conteúdo que assistem. Nesse ponto entra a questão da identificação. Porque, de repente, a dupla não se vê ali, aquilo não mexe com elas. Por outro lado, se aquilo que assistem bater de frente com as idealizações que ambas tem dos papéis de mãe e filha, pode apostar que alguma coisa vai acontecer ali”.
A relação entre mãe e filha pode ser muito complicada, e isso acontece porque “A constituição do psiquismo feminino, Freud já dizia, é toda complicada”. Nós desenvolvemos sentimentos ambivalentes nessa relação. “A menina quer o amor da mãe, mas ao mesmo tempo ela tem que derrubar essa mãe para que ela tenha o pai só para ela, então já na infância isso é confuso, tanto para a filha que se vê com sentimentos contraditórios e não sabe por que (é um processo inconsciente) e para a mãe, que enfrenta dificuldades para lidar com essa filha, que ora ama, ora repele” completa Beatriz.
E o papel do pai nessa relação? Em Gilmore Girls, por Lorelai não ter aceitado se casar com o namorado Christopher (David Sutcliff), quando ficou grávida, acaba o deixando ausente da vida de Rory. Durante as temporadas, ele passa de ausente e um pouco irresponsável a um pai presente na medida do possível e estável. Já o pai de Blair, Harold (John Shea) teve participação efetiva na vida dela até a adolescência, quando pediu divórcio para poder viver na França com um namorado, o que abala mais ainda a relação entre Blair e a mãe. “O pai é uma figura delicada na relação”, conta Beatriz “As atitudes dele (na infância) determinam muito seu próprio papel na vida da filha. Esse papel também depende também do lugar que a mãe coloca ele no cuidado da filha, desde cedo. O ideal é que o casal se integre nos discursos, para passar uma integridade maior aos filhos”.
Em uma situação ideal, a filha deveria se identificar com a mãe. Quando isso se dá de forma negativa, temos então a inveja. E a inveja leva a competição – incentivada na sociedade capitalista. “(A inveja) É uma posição que leva a várias defesas, afastamento, por que é uma forma de querer aquilo que a pessoa tem, mas nunca realizar nada para tal. Ao contrário da admiração, que te instiga a fazer algo, a inveja só te faz invejar mais. Isso é muito tanto na mãe quanto na filha, especialmente na adolescência. A filha pode invejar a independência, a autoridade da mãe, enquanto ela acaba juventude, a vitalidade da filha”.
Para tentar melhorar esta relação, o diálogo é a melhor saída. “Mas um diálogo desarmado; precisa haver uma escuta interessada de ambos os lados, para que não vire um monólogo. Não é aquela coisa de apontar dedos, enumerar erros, é um diálogo que compreenda as coisas, que perdoe, que se coloque no lugar. Isso é difícil, mas também importante; talvez sirva para todos os nossos relacionamentos”, afirma Beatriz. Nesse caso, os conteúdos que ambas assistem na televisão, incluindo aí os seriados, podem ter certa influência, bem difícil de ser percebida, pois fazem parte de todo um conjunto de influências e situações que as levam a agir desta ou de outra forma.

Aline Dias tem 17 anos e é uma grande fã de seriados. É moderadora da comunidade “Gilmore Girls Brasil” no Orkut e faz cursinho pré-vestibular; tem uma ótima relação com a mãe, a securitária Ana Maria de Sena.
Qual é seu seriado favorito?
Gilmore girls, definitivamente. Série que ainda está em andamento, Bones!
Como se tornou moderadora da comunidade? Quais são suas principais atividades nela?
Tornei-me moderadora faz tempo, na época que Gilmore girls estava na 7ª temporada (em 2007), então sempre tinha episódios novos, spoilers, e muitas coisas pra se postar e comentar. Eu era muito presente na comunidade, sempre tirando dúvidas, ai o dono me convidou! As funções são basicamente deixar a comunidade organizada, apagar spams e tópicos repetidos ou desnecessários, responder as dúvidas dos novos fãs, etc.
Você acredita que seriados que retratam a relação entre mãe e filha acabam influenciando essas relações na vida real?
Acho que sim, depende até que ponto. Pode influenciar pras pessoas enxergarem um lado melhor dessa relação, pensar um pouco sobre a sua própria. Mas não ao ponto de ser igual ao seriado, a vida real é diferente, e cada uma tem a sua realidade.
Como é a relação com a sua mãe? Você já tentou modificar alguma coisa entre vocês por influência de seriados?
A relação com a minha mãe ótima, nota 10! Acho que até me contradigo, mas somos muito Lorelai e Rory, a diferença de idade que é grande, não tão pequena como no seriado.
Você conhece alguém que tenha melhorado sua relação com a mãe por causa de seriados?
Acho que não, nunca conheci muitas pessoas fãs de Gilmore girls. As poucas que conheço até nem tem um bom relacionamento com suas respectivas mães, será que isso se torna um atrativo na série? Não sei...
Em sua opinião, qual é a importância dos seriados mostrarem a relação mãe e filha?
A importância está em mostrar como mãe e filha, apesar da diferença de gerações, podem ter uma relação sadia. Serem amigas à cima de tudo. É uma relação maravilhosa, porque nada melhor e mais confortante do que poder dividir tudo com a própria mãe.
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